A Invenção da Mentira

April 1, 2018

 

Na categoria de “comédia romântica”, ... oiii? Como assim? Comédia? Romântica?

 

O filme é uma corrosiva fábula sobre um mundo incapaz de mentir não por livre-arbítrio, mas por ausência de empatia.

 

“O Primeiro Mentiroso” (The Invention of Lying, 2009) é o resultado de um roteiro de humor negro sobre os temas da mentira, moralidade e religião, e aqui a mentira não é tratada pelo viés moral. 

 

A novidade é que ele inverte a questão ao colocar a mentira no campo da abstinência de moralidade. Em um mundo onde todos falam a verdade não existe o conceito de mentira. “Franqueza”, “honestidade” e “sinceridade” são termos inaplicáveis aos habitantes desse universo fictício pois essas são categorias morais.

 

Os habitantes dessa fábula destituídos de moral simplesmente dizem o que lhes vem à mente sem saberem a oposição entre verdade/mentira, moral/imoral. Eles se comportam assim não por uma opção moral, livre arbítrio na escolha entre o certo e o errado, e porque então?

 

Os diálogos diretos criam situações de típico humor negro chegando próximo ao brutal pois as pessoas nesse mundo são tão diretas e verdadeiras que expressam sem pudor seus preconceitos e intolerâncias.
 

Um pequeno "spoiler" só para contextualizar ;) O fracasso financeiro de Mark chega ao limite no momento em que ele é demitido e vai ser despejado. Deve 800 dólares de aluguel e só tem 300 na sua conta bancária. Ao chegar ao banco para sacar tudo o que resta é informado pela caixa que o sistema caiu. Ela lhe pergunta quanto tem na conta. Uma ideia vem como um raio à mente de Mark: e se dissesse o que não é? Bummmm! ... aqui novas sinapses, a mentira é inventada. Ele diz que tem 800 dólares e a caixa acredita, lhe entrega o dinheiro e ele evita ser despejado.

 

Legal a sacada de quem construiu o roteiro pois Mark é um perdedor que trabalha como roteirista para o cinema e na ausência da mentira não há ficção, por isso os filmes são basicamente textos sobre fatos históricos reais lidos por um narrador em tom professoral diante das câmeras.

 

Tal como Adão no Paraíso do Gênesis bíblico, Mark morde a maçã, perde a inocência e descobre os prazeres da mentira. A grande sacada do filme é que, ao contrário do moralismo bíblico hollywoodiano, Mark não será punido. Mais que isso, como primeiro mentiroso da história daquele mundo paralelo, será capaz até de criar a primeira religião baseada na mentira e continua mentindo compulsivamente até o final.

 

Talvez, o próximo estágio de Mark seria quando ele passasse a acreditar nas próprias mentiras, esquecendo-se o que fora, um dia, a verdade. Bem, aí estaríamos dentro do campo da amoralidade pós-moderna e total ausência de empatia.

 

 

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