A invisibilidade da Violência.

April 27, 2019

Como lidamos com a dor do outro diz muito sobre como lidamos com nossas próprias dores.

 

Este artigo é um convite a fazer algo diferente ao olharmos conscientemente para nossas ações. E, a partir daí, fazermos escolhas conscientes de como nos relacionamos com nós mesmos e com os outros.

 

Então, ...

 

Qual foi a última vez que você escutou algo difícil?

Consegue se lembrar de sua reação?

Como tentou contribuir com o bem-estar desta pessoa?

Alguns de nós traríamos as soluções que funcionaram para nós.

 

"Olha, eu sei bem como é isso. Já passei por algo assim. Seguinte, faz isso, isso e aquilo que resolve, ou ao menos melhora." Imbuídos de boas intenções oferecemos uma "fórmula mágica.” Sem perguntar se ela esta disposta a escutar uma opinião.

 

Alguns de nós, tentando oferecer apoio, busca tornar a percepção da dor menor.

 

"Não fica assim. Vai passar. Amanha é um outro dia, você vai ver. Que tal olharmos por outra perspectiva." Incentivamos a negação do direito de sentir aquilo que se sente, na intensidade que a dor se revela.

Alguns de nós temos essas como reações cotidianas, que muitas vezes ocorrem no piloto automático pois aprendemos que essa é a melhor forma de lidar com a dor.

 

Existe uma outra oportunidade, a de estar presente, antes de qualquer coisa. Escutar, sustentar a dor que esta ali, sem querer bani-la.

 

- Como assim... deixar a pessoa sofrer?

 

Acreditando na autonomia e escolha de uma pessoa é ouvir o que ela necessita o que é importante pra ela naquele momento.

 

Há quem diga que gostaria de um conselho.

Há quem precise de apoio para ver que talvez a situação não seja tão grande quanto parece.

Há quem queira principalmente de um abraço genuíno.

Há quem esteja precisando apenas de falar e ser ouvido.

 

A principal mudança é - antes de tomar qualquer ação que  parece óbvia e uma ótima saída – escutar o que seu interlocutor necessita.

 

Um exemplo:

 

"Fui despedida da empresa na qual trabalhei 8 anos. Estou bem triste com essa situação, me sinto sem chão”.

 

Reação 1, minimizando a dor: "Ah, que isso! Não é nada. Você é competente vai arranjar um trabalho logo, logo. Vamos tomar um vinho para celebrar essa nova oportunidade."

 

Reação 2, estando a serviço do outro: "Nossa, fiquei surpresa. Fico preocupada e gostaria de saber como poderia contribuir, se é que há algo que eu possa fazer."

 

Numa situação de fragilidade e dor, uma pessoa vai se expressar abertamente. E quando escuta "eu sei o que é bom pra você" a chance de sermos violentos de forma invisível, é enorme.

 

Esse é um exemplo, dentre inúmeros, onde criar espaço para a dor existir e a própria pessoa escolher como caminhar, pode contribuir para o bem-estar e autonomia de todos. Ainda que isso signifique  sentir essa dor por um tempo.
 

Quando marginalizamos o que surge em nós criamos um senso interno de inadequação, categorizando o que "devemos" e "não devemos" sentir e expressar. Conseqüentemente, projetamos nas pessoas ao redor essa mesma inadequação e a violência se retroalimenta.

 

E você, como lida com a dor?

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