Covid-19 - Corona Virus


A peste convoca em nós esta dupla tarefa de enfrentar o medo e de fazer frente à angústia. O medo nos faz agir, avaliar riscos e calcular estratégias. Diante do medo podemos atacar ou fugir. Ele nos incita a tomar medidas protetivas, obedecer restrições de contato social ou métodos de higiene e limpeza. Só um tolo desfaz do medo apegando-se à ideia de que não há motivo para o temor, que a fé nos protegerá ou que a doença é apenas uma invenção imaginativa.


O problema começa quando o medo do que vem de fora se contamina com a angústia com o que vem de dentro. Percebe-se assim como a ideia de contaminação é uma ideia objetiva e subjetiva. Ela fala da transmissão real de um vírus de corpo para corpo, da passagem simbólica da cultura entre nativos e estrangeiros, mas também da mistura imaginária entre o bem e o mal dentro de nós. Por isso a doença é o pretexto ideal para ativar preconceitos, invocar fantasmas e revitalizar complexos infantis.


Podemos distinguir três reações básicas diante da pandemia: o tolo, o confuso e o desesperado. O tolo desconhece a importância do medo. Desprevenido e desinformado, ele irá em busca de culpados. Ele não é corajoso porque não reconhece os riscos e resolve atravessá-los mesmo assim. Ele simplesmente não quer saber do perigo, por isso também não toma providências. O confuso é aquele que lida com a angústia tentando transformá-la inteiramente em medo real. Ele estocará quilos de papel higiênico, andará com tonéis de álcool gel no bolso e saberá tudo que todos os governantes falam, mas também acompanhará todos os boatos e disseminará todas as hipóteses. Finalmente, a reação dos desesperados transformará todo o medo, gerado pela indeterminação, em motivo para incremento de angústia.


Quando éramos pequenos desafiávamos a imensidão do mar, às vezes sem uma mão amiga. O tolo era aquele que não acreditava na profundidade marinha e achava que aquilo era apenas um truque que os pais criavam para ele não ir longe demais. Os confusos descobriam que, diante da imensidão do oceano, infelizmente eram menores do que se imaginavam. Passavam horas brincando de segurar as ondas e construindo resistentes castelos de areia. Enquanto isso os desesperados enfrentavam aquela onda maior, que tirava o chão sob os pés. Naquele instante infinito eles podiam afundar a cabeça, engolir água ou debater-se em desequilíbrio. Alguns aprendiam, a duras penas, que é possível entregar-se ao movimento e esperar, porque aquilo também passará.


Compare agora a imagem desta onda com as curvas de evolução provável da Covid-19. Será ela uma curva em pico, no auge da qual não teremos recursos para entubar todos os necessitados, com afluxo massivo aos hospitais em estado caótico? Ou teremos uma curva baixa e mais longa, derivada de uma certa consciência coletiva de que sim, o perigo existe, e que sim, ele nos trará angústia de saber se seremos ou não escolhidos, mas que ainda assim podemos agir sobre o medo, evitando aglomerações, reduzindo o contato entre crianças e idosos e também aprendendo algo sobre nossos próprios fantasmas?


Ilusões de controle e dominação

Acalmar-se é algo que ninguém pode fazer por você. Se você espera que apenas mais notícias, informações e comentários venham pacificá-lo, ou se você acha que aumentar o estoque de máscaras vai sanear sua angústia, você está se enganando. O verbo é acalmar-se, e não ser acalmado pelos outros e pelos objetos. O medo se combate com precaução e medidas objetivas, a angústia com cuidado e trabalho subjetivo. Neste sentido a pandemia tem muito a nos ensinar, especialmente quanto a nossas ilusões de controle e dominação sobre o mundo e nosso destino. A crença digital de que somos muito importantes e tantas outras promessas nos fazem acreditar que somos soberanos sobre nossas vidas.

Daí aparece um pequeno micro-organismo, bastante limitado do ponto de vista de sua capacidade reprodutiva e de sua estrutura biológica de RNA e nos derruba. Ou seja, do ponto de vista de nossa angústia, o coronavírus não poderia ter um nome melhor: ele nos tira do trono de nós mesmos e coloca a coroa de nossas vidas em sua justa dimensão. É a coroa de espinhos que convoca uma experiência escassa em nossa época: a humildade.


Diante desta pequena e destrutiva força da natureza, nosso narcisismo se dobra como um vassalo encurralado. Apesar de dolorosa como um espinho na alma, esta pode ser uma experiência profundamente transformadora. Descobrir que podemos muito menos do que pensamos, aceitar o imponderável que nos governa e acolher com humildade o que ainda não dominamos pode ser muito benéfico. Pode ser uma verdadeira terapia para aqueles que precisam descansar a cabeça do peso de sua coroa de espinhos narcísicos.


Faço dessas as minhas palavras.


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STELLA BITTENCOURT

 

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